No mundo de She Diao, eu, Huang Yaoshi, o mestre original, cultivo a força e tempero o corpo, tornando-me indestrutível, um Yama vivo, dominando sem restrições—quem ousa afirmar que compreende Huang Yaoshi melhor do que eu? No universo de Tianlong, o vazio é o nada, o bambu é a claridade; este corpo não é meu, os fios do destino do mundo nada têm a ver comigo. Se qualquer coisa obstruir meu caminho, mato! Na lenda de Lu Xiaofeng, flores desabrocham sob a lua eterna, a água flui sem fim; quando o coração floresce, também florescem os salões. Sou da família Hua, também um cego, mas sou Hua Manxin, não Hua Manlou. Um aviso: Hua Manxin não hesita em matar! ... Ao longo dos vastos céus, só desejo deitar-me, passo a passo... Ascendendo o caminho, não me provoquem, não me pressionem, caso contrário tomarei tudo que não me pertence, este é o princípio fundamental de minha conduta. Abandono a ética pessoal, saboreio uma vida sem escrúpulos. Recuso o desgaste mental—em caso de problemas, enlouqueço de imediato. Antes de sacrificar-me, prefiro dificultar a vida alheia. ... Este livro também se intitula: “Qualidade Indefinida, Forte diante da Força”, “Senhor dos Mundos? Nem um cão faria isso”, “Só desejo cultivar o caminho do abandono”, “Só sei ultrapassar almas, não salvar multidões”, “Quando enlouqueço e desencadeio calamidades, que os mundos se calem e os seres não perturbem.”
No dia em que a neve caía copiosamente, entre ameixeiras gélidas à beira do lago plácido, do lado oeste, entre as árvores, ouvia-se ao longe uma altercação abafada; e, contudo, sobre as águas do lago, raramente alguém ali se permitia o luxo do ócio, a flutuar numa barca para contemplar a neve.
— Você não disse que seu pai já havia morrido?
— Está rogando praga ao meu pai, é?
Sobre a embarcação, via-se um rapaz e uma donzela lado a lado; ele, de dezoito para dezenove anos, alto e robusto, de sobrancelhas cerradas e olhos intensos; ela, não mais do que quinze ou dezesseis, de beleza inigualável, delicada e encantadora.
— Não, não, de forma alguma — apressou-se o rapaz, murmurando em seguida, quase inaudível: — Teria eu me confundido?
A jovem, que ouvira tudo perfeitamente, respondeu com voz melodiosa, mas tingida de melancolia:
— Foi minha mãe... Minha mãe morreu logo após o meu nascimento, jamais cheguei a conhecê-la.
— Meu pai, porém, é diferente do seu. Ele passa os dias, quando não está dedilhando o qin, pintando, compondo versos ou cultivando flores, a contemplar a lua, a exercitar-se nas artes marciais, ou então a contar-me histórias e, não raro, a perder a paciência comigo.
— Também cozinha, mas é de um rigor extremo, só preparando as iguarias mais deliciosas.
Ao dizer isto, sua voz alterou-se.
— Contudo, odeio-o. Só porque o vi manter uma pessoa presa, sem jamais libertá-la... E porque achei pena daquela alma, sempre sozinha e entediada, levei-lhe boa comida e bebida; ele, então, zangou-se e ralhou comigo.